Hoje calça-se Amarelo!

Pensa num número?

Calcorreamos a cidade à procura de um número. O 7? Não, o 20 da Rua da Fortaleza onde o anunciado e enigmático espetáculo cujo título é apenas um número terá lugar. Primeiro o espanto. É uma porta de garagem, só isso… voltamos aos anos 70 se tivermos tempo suficiente para isso. Teatro de garagem que traz um ar de resistência e marginalidade. A porta, uma porta demasiado pequena para entrar e que não abre para lado nenhum anúncia o «7». É ali. A rua está vazia. É ali. No 20 o «7».

Entramos, ouve-se uma música. Uma escada, uma roldana industrial, meia dúzia de fotos e um corrimão tromp d’oil. É ali. O «7». «7» dias por semana. Diz a sinopse que levo na mão. Antes tivessem posto um mapa… não é fácil descobrir o 20 no enclave que fica entre o largo dos correios e a fortaleza. Voltamos à música, aos cortinados que se abrem para um espaço que espelha memórias.

É aqui? O «7»? Sim.

Ficamos já de bilhete e folha de sala, ainda enigmática, na mão. Não há muita luz. Lemos só metade dos textos que a Companhia Certa apresenta. Esperamos.

Não há paredes. Desculpe, como se chama esta sala? Não é uma sala, é um Espaço. d’Mente, Espaço d’Mente.

A cortina preta abre para um outro espaço. Não há muita luz. Não há pernas, não há bambolinas, uma caixa negra envolve 4 elementos do cenário. Duas telas, duas cadeiras. 4 adereços 2 pares de sapatos e duas camisolas. Não sei porque as contamos. Já não trocamos palavras. Black out. Música.

As personagens saem das sombras, calçam e descalçam os dias numa repetição que nos é familiar. São 7 dias.  Pergunto-me (agora sozinha pois não há porque partilhar os meus pensamentos) quem serão estas mulheres. Porque sinto que estas suas inquietações tem tanto de mim. São 7 dias. Percebo o 7 no quotidiano. Como um passe de mágica uma das mulheres tenta que façamos um cálculo. É tudo demasiado rápido. Mas sim, o resultado é 7. Pergunto-me em que espelho se refletem estas questões. Pergunto-me. Demasiado perto, é tudo demasiado perto. Será por isso que lhe chamam Espaço d’Mente. Ouço-me em cada pergunta. Não quero. Olho para o tecto enquanto ouço as duas mulheres. Ana Joana Inês… são demasiados nomes para caber ali naquele espaço. Olho em volta. Estes que estão sentados pensarão o mesmo que eu. Sinto que os dedos me apontam. Já consigo olhar o meu reflexo em cada palavra dita. E naqueles gestos que são meus.

Calçam-se. Descalçam-se. São 7 dias. A cena tão simples e tão extraordinariamente eficaz. Espelhos de sombras. Sombras. Espelhos. Romperam o espelho? Merda, perdi-me no texto. Uma das mulheres olha-me. Está demasiado perto mas agora dou por mim a gostar disso. Sinto que me vai fazer uma pergunta.Merda mas eu perdi-me no texto. Como posso falar se todo o discurso delas troveja nos meus pensamentos. Olho-a de volta. Não tenho receio das suas perguntas. Não me pergunta nada. A outra mulher responde, às vezes questiona. Enfrentam-se.

Enfrento-me.

São 7 dias e já viajamos até à infância perdida. E tentamos apanhar os pedaços que de nós vivem nos outros. Espreito as minhas mãos.

Que luz! E nas sombras respiro, como se não houvesse mais matéria para questionar. Terminou? Mas? E?

Sinto-me estranhamente limpa. Estranhamente capaz.

São 7 dias. Já passou? Dizem que os dias passam devagar mas as semanas passam depressa.

Alguém volta a abrir a cortina preta. Bailam interrogações e sorrisos.

A Companhia Certa estava num Espaço d’Mente. Que ironia.

 

27|04|2018

Ana B.

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